ANTROPOLOGIA
A antropologia
é uma ciência cujo campo de atuação é muito vasto devido a seu enquadramento no
ramo tanto das ciências naturais, visto que estuda o corpo humano do ponto de
vista físico-biológico, ciências sociais, já que o objeto de estudo é o homem e
este vive em sociedade, e por fim das ciências humanas, afinal como já foi dito
o centro do estudo antropológico é o homem, como se pode observar na própria
origem da palavra. Antropo quer dizer homem e logia, estudo.
Mas é
importante ressaltar que a ampliação do campo de estudo da antropologia é
relativamente uma novidade. Em tempos passados o foco do antropólogo era um dos
ramos conhecido atualmente como antropometria. Estudava-se o corpo humano do
ponto de vista físico, tamanho do esqueleto, forma das mãos, das pernas etc. O que tornava a antropologia mais próxima das
ciências naturais.
Como o
interesse antropológico é o estudo do homem é possível concluir que a
abrangência espacial e temporal do conhecimento é tão vasta quanto a própria
civilização humana. Em qualquer lugar que haja homens, e em qualquer época,
pode o antropólogo fixar suas pesquisas.
A pesquisa
própria da antropologia é a pesquisa de campo, mas o cientista também pode se
valer de outros meios para formar seu trabalho.
A antropologia
cultural analisa a relação entre a herança biológica e social que servem de
estrutura a capacidade do homem de viver e produzir cultura. O campo de estudo
que mais chama a atenção é a etnografia juntamente com a etnologia que são a
descrição e a análise de determinado grupo respectivamente.
O etnógrafo
deve ser especialista, deve explorar de forma exaustiva toda a composição
cultural de determinado grupo. Para que isto seja possível estuda-se
normalmente grupos pequenos e simples. Mas só a descrição não basta, por isso o
etnógrafo deve ser também etnólogo, de modo que posso além de expor, analisar
as características estudadas.
Considerando o
imensa área de conhecimento da antropologia é possível dizer que qualquer outra
ciência pode contribuir de alguma forma com a primeira. Claro que existem
aquelas que possuem uma relação íntima com a antropologia. Como exemplo podem
ser citadas a sociologia, a economia, a psicologia e a política.
No que diz
respeito a história, no ponto do provável surgimento da antropologia,
encontramos Heródoto, que foi o primeiro a fazer anotações sobre a cultura que
o rodeava. Ele é considerado pai da antropologia.
CULTURA
Existem muitas
definições para cultura. A seguir serão expostas algumas dadas por estudiosos
do tema.
Edward B.
Tylor (1871) “Cultura é aquele todo complexo que inclui conhecimento, as
crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e
aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade”
Ralph Linton
(1936) “A cultura de qualquer sociedade consiste na soma total de ideias,
reações emocionais condicionadas a padrões de comportamento habitual que seus
membros adquiriram por meio da instrução ou imitação e de que todos, em maior
ou menor grau, participam.”
Franz Boas
(1938) “A totalidade das reações e atividades mentais e físicas que
caracterizam o comportamento dos indivíduos que compõem um grupo social”
Malinowski
(1944) “O todo global consistente de implementos e bens de consumo, de cartas
constitucionais para os vários agrupamentos sociais, de ideias e ofícios
humanos, de crenças e costumes”
Herkovits
(1948) “A parte do ambiente feita pelo homem”
Krobeber e
Kluckhohn (1952) “Uma abstração do comportamento concreto, mas em si própria
não é comportamento”
Beals e Hoijer
(1953) A cultura é uma abstração do comportamento e não deve ser confundida com
os atos do comportamento ou com os artefatos materiais, tais como ferramentas,
recipientes, obras de arte e demais instrumentos que o homem fabrica e utiliza”
A cultura
segundo alguns é composta por elementos materiais e imateriais. No plano
material estão os objetos, ferramentas, utensílios domésticos, habitações,
obras de arte etc. Enquanto no campo imaterial ou espiritual se encontram os
sentimentos, os valores, o conhecimento, as técnicas entre outros.
Um ponto
aparentemente consensual entre estudiosos é que qualquer homem possui cultura,
salvo o recém nascido que ainda não teve contato com o meio social e o homo ferus que também foi privado do
convívio com seus pares tornando-se apenas um animal como os demais, daí a
denominação que quer dizer homem-fera.
Alguns autores
apontam a cultura como mecanismo de controle social, cita-se como exemplo a
Igreja quando regula o relacionamento de seus fiéis impondo regras. Outros, no
entanto, enxergam a cultura como fruto da ação humana repetida que de certa
forma beneficia o grupo, sem intenção repressora ou algo do tipo.
A localização
da cultura também merece ser analisada. Segundo a autora Leslie A. White
encontra-se no espaço e no tempo e pode ser classificada da seguinte forma:
Intra-orgânica:
Está dentro do organismo humano (Ex. Crenças, conceitos, sentimentos)
Inter-orgânica:
Localiza-se nos processos de interação social (Relacionamento humano)
Extra-orgânica:
Situa-se nos objetos materiais (Ex. Ferramentas, ferrovias, casas, artesanato)
A essência da
cultura é tratada pelos antropólogos como a soma de ideias, abstrações e
comportamentos.
Ideias:
Concepções mentais de coisas concretas ou abstratas. (Ex. Língua, mitologia)
Abstrações:
Aquilo que só se encontra no domínio da mente, não se materializa de forma
alguma. Leslie A. White discorda da abstração alegando que ela é irreal,
portanto está fora do campo científico.
Comportamento:
Modo de agir comum ao grupo.
Outra divisão
dada a cultura a separa em real e ideal:
Real: É aquela
que acontece, que todos os membros pensam ou praticam em suas atividades
quotidianas. No entanto não pode ser percebida em sua totalidade. O
conhecimento científico nem sempre pode evidenciá-la porque o real é apresentado como o que as
pessoas conhecem ou pensam que seja.
Ideal:
Conjunto de comportamentos considerados bons por todo o grupo, mas que em
certas situações são ignoradas, muitas vezes para que o interesse privado
prevaleça sobre o coletivo. Seria a cultura perfeita, utópica.
Para ampliar
ainda mais a noção sobre cultura serão tratados a seguir os componentes da
cultura.
Conhecimento:
Normalmente são práticos e próprios do ambiente em que se situa o grupo, com a
finalidade de facilitar a sobrevivência. Estão englobados também noções da
organização social, estrutura de parentesco, usos e costumes, crenças, técnicas
de trabalho etc.
Crenças: É a
aceitação de proposições independentemente de comprovação científica. Possui
conotação emocional. Subdivide-se, segundo Goodenough (In Kahn, 1975:207) em três tipos:
Pessoais: Aquelas aceitas por um
indivíduo qualquer
Declaradas: Proposições que uma
pessoa aparenta aceitar e que as usa para justificar suas ações perante os
outros
Públicas: São proposições
aceitas como verdadeiras por todo o grupo.
Valores: Citando
Raymond Firth (1974:59 e 60) “A qualidade de preferência atribuída a um objeto,
em virtude de uma relação entre meios e fins, na ação social”.
Normas: São as
regras que regulam o convívio social, fazendo com que o indivíduo tome
determinada atitude diante de certa situação.
Símbolos: São
manifestações intelectuais do homem as quais se atribuem valores e significados
de acordo com o grupo que os utiliza.
Prosseguindo a
abordagem do tema serão expostas situações em que culturas diferentes se
encontram. Primeiramente o leitor precisa conhecer o etnocentrismo, quando o
grupo defende sua cultura como a única correta e superior às demais.
Infelizmente isso causa grave prejuízo ao próprio ser humano.
Cada cultura
se formou a partir de muitos fatores combinados buscando a realização do bem
comum. Logicamente as condições de cada região, a história, o governo, a
educação e tudo mais influenciam diretamente na cultura então o que funciona em
um lugar pode não funcionar em outro, mas isso não significa que a cultura é
ruim, ou inferior. Ela simplesmente surgiu para atender as necessidades daquele
grupo naquele momento.
Vale ressaltar
também que como a cultura é produto da realização do homem certamente ela
corresponde à noção de certo e errado do grupo. Não há certo e errado
universais. Para a maior parte dos países árabes a mulher adúltera deve ser
apedrejada até a morte e isso é normal. No mundo ocidental isso é considerado
um absurdo, algo que é inimaginável. No entanto em nosso país a mulher usa
“pouca roupa” e não há nada de errado, enquanto em outro lugar do mundo esse
comportamento é inaceitável.
Mas o que vale
para o antropólogo são as diferenças, não cabe a ele julgar quem está certo ou
errado. Até aqui parece tudo tranquilo, mas em certos casos o costume de alguma
sociedade pode contrariar tão intensamente o costume de outro povo que surgem
conflitos, inclusive órgãos internacionais tentam disciplinar o comportamento.
Como exemplo estão as mutilações sexuais praticadas por determinadas tribos da
África.
A
nossa cultura não aceita de modo algum a tortura ou mutilação de pessoas a
qualquer título. Mas por que algumas tribos ainda o fazem? Quem estará certo?
Difícil responder. O interessante mesmo é pensar a respeito.
Quando
as autoridades locais ou internacionais podem intervir na cultura de um grupo e
modifica-la ou mesmo eliminar traços considerados contrários a dignidade
humana? Esta questão pode ser discutida por incontáveis anos e jamais haverá
consenso. Entretanto não é intenção deste trabalho responder, mas incentivar a
reflexão acerca do tema.
Como
estamos entrando na análise de componentes culturais faz-se necessário explicar
alguns conceitos como elemento ou traço cultural, complexo cultural e padrão
cultural.
Traço
cultural ou elemento cultural: É o elemento mínimo, irredutível de determinada
cultura. Podem ser materiais, exemplo a bola num jogo de futebol, ou imateriais
como o aperto de mão.
Complexo
cultural: União de vários traços culturais formando um todo que possui
determinada função na área cultura correspondente. Ex. O futebol, que une
traços como a bola, os árbitros, os jogadores, o campo, a torcida etc.
Padrão
cultural: Segundo Herskovits são “os contornos adquiridos pelos elementos de
uma cultura, as coincidências dos padrões individuais de conduta, manifestos
pelos membros de uma sociedade, que dão ao modo de vida essa coerência,
continuidade e forma diferenciada” O padrão consiste em mando comportamental, é
relativamente homogêneo e aceito pela sociedade como um todo. Une modo de
pensar e agir aos objetos materiais correspondentes.
Da
integração de diferentes traços e complexos culturais, com os valores que lhes
são atribuídos, surge a configuração cultural.
Ruth
Benedict (s.d.:37) escreve: “uma cultura é um modelo mais ou menos consistente
de pensamento e ação (...). Não é apenas a soma de todas as partes, mas o
resultado de um único arranjo e única inter-relação das partes, do que resultou
uma nova entidade”.
Toda
essa composição da cultura precisa de um lugar para existir. É o que chama-se
área cultural, é o local onde situa-se o grupo correspondente à determinada
cultura, ou que pelo menos os traços e complexos se identifiquem não sendo
necessariamente idênticos.
Normalmente
a área cultural corresponde à um território diferente das divisões tradicionais
políticas ou administrativas.
Dentro
da cultura dominante existem subculturas que representam adaptações de
determinados grupos às regras gerais, sem contradizê-las. Alguns antropólogos
associam o termo a grupos regionais, étnicos, ou classes sociais.
Na
constituição da cultura existem fatores com diferente valoração para os
indivíduos, o que torna universais certas regras e facultativas aquelas menos
importantes. Em culturas mais simples a universalidade as normas é maior ao
passo que em sociedades complexas são poucos os princípios universais.
Podem
ser entendidos como universais aqueles valores que explicam e justificam os demais,
possuem portanto maior relevância para o povo. Ex. Democracia, monogamia,
liberdade etc.
Fundadas
nas normas universais estão as especialidades, que embora sejam aceitas por
toda a sociedade somente são praticadas por determinado grupo. Ex. Saudação do
escoteiro.
Ao lado das especialidades encontra-se a
cultura alternativa, que também não contradiz normas universais. Simplesmente é
a opção individual. Ex. Mulher usar saia ou calça.
Como
a sociedade é formada por homens e não há indivíduo igual ao outro, existe, na
cultura, lugar para as peculiaridades de cada um. Mesmo tendo sido aprendidas
por meio social algumas habilidades pessoais não são compartilhadas pelos
outros. Ex. habilidade com violão.
Já
falamos bastante de cultura, mas ainda falta examinar como o indivíduo se torna
integrante da cultura em que está inserido e por último como ela se modifica.
O
processo pelo qual a pessoa “recebe” sua carga cultural é chamado pelos
estudiosos de endoculturação ou enculturação. É necessário saber que o homem é
formado pela herança genética, que é automática e presente em todos mais ou
menos da mesma forma, e pela herança social que lhe é passada por seus
semelhantes durante toda a vida.
A
pessoa em sociedade adquire as crenças, comportamentos, sentimentos,
pensamentos, costumes, modo de vida e outros, mas ninguém é capaz de assimilar
toda a cultura local.
Quando
uma cultura esbarra na outro temos um outro processo de formação cultural
chamado aculturação. Que pode ser entendido como a relação estabelecida entre
duas ou mais culturas, em que cada uma afeta a outra. Um exemplo muito próximo
é o encontro de portugueses, negros e indígenas na colonização do Brasil.
Pode
ser também o contato entre subculturas locais que se aproximam e trocam ou
copiam componentes uma da outra, podem até mesmo se unir a ponto de formar uma
nova contando com traços de todas.
Ao
que parece a aculturação sempre resulta no aumento do acervo cultural de dada
sociedade, mas não é sempre assim. Traços culturais podem competir em busca de
espaço e se apenas um prevalecer estamos diante do fenômeno da deculturação.
As
mudanças culturais estão cada vez mais presentes em nossa realidade tendo em
vista que o mundo todo está muito próximo de nós. Com o advento da globalização
um costume próprio da Índia pode passar a ser comum no Chile, por exemplo. É
até preocupante o que vem acontecendo recentemente porque o mundo está
globalizando tudo. A cultura global está tomando conta dos países, eliminando
assim aquelas peculiaridades de cada povo, destruindo a identidade cultural.
Temo que no futuro não seja possível identificar um pequeno grupo de pessoas
por meio de sua cultura.
Modificar
uma cultura pode ser fácil ou difícil, rápido ou demorado tudo depende de como
o povo aceita tal mudança. A tendência é que se torne cada vez mais fácil e
mais rápida a transformação em virtude da evolução acelerada dos meios de
comunicação. Ocorre mudança quando novos elementos são incorporados, ou os
velhos são aperfeiçoados; novos elementos são tomados de empréstimo de outras
culturas; elementos inadequados são descartados; alguns traços se perdem por
não serem transmitidos de geração em geração.
Quando
a quantidade de novos elementos supera o número dos que caíram em desuso ocorre
crescimento cultural, caso contrário estaremos falando de declínio cultural.
O
crescimento cultural se dá por meio de:
Inovação:
É a criação ou descoberta de novos elementos. É fruto da criatividade humana e
pode surgir a partir de uma necessidade ou até mesmo de acidentes.
Aceitação
social: Um elemento de outra cultura é acrescentado, imita-se o comportamento
de outros povos. Pode começar com um indivíduo e se estender aos demais.
Normalmente sofre muito com o preconceito.
Pode
ocorrer declínio por questões de eliminação seletiva, em outras palavras um
traço que torna-se inútil é esquecido pelo povo. Sempre que um elemento é
superado por outro melhor ou mais eficiente ele é abandonado. Somente enquanto
for útil ele perdura no tempo.
O
assunto não se encerra com este trabalho, ainda há muito que se falar a
respeito de cultura e antropologia. Mas a intenção do presente é apenas formar
uma noção acerca do tema e proporcionar ao leitor base sólida para que se
aventure em busca de novos saberes.
Em
conclusão pode-se dizer que a antropologia é uma ciência com campo de atuação
tão grande quanto sua importância para a formação humana. E que a cultura, uma
pequena parte da primeira, merece muito nossa atenção tendo em vista que
acompanha toda relação social que os homens estabelecem entre si, diariamente,
como condição básica para sua existência. Entender a cultura em suas infinitas
formas e processos é entender a própria humanidade.
JOSÉ MARIA ROQUE
JUNIOR, acadêmico de Direito da FADIVA (Faculdade de Direito de Varginha)
Adorei,muito bem explicado!
ResponderExcluirA redação agradece! Continue acompanhando, em breve voltaremos a escrever.
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