domingo, 18 de maio de 2014

Introdução à antropologia com base em Marconi e Presotto

ANTROPOLOGIA
A antropologia é uma ciência cujo campo de atuação é muito vasto devido a seu enquadramento no ramo tanto das ciências naturais, visto que estuda o corpo humano do ponto de vista físico-biológico, ciências sociais, já que o objeto de estudo é o homem e este vive em sociedade, e por fim das ciências humanas, afinal como já foi dito o centro do estudo antropológico é o homem, como se pode observar na própria origem da palavra. Antropo quer dizer homem e logia, estudo.
Mas é importante ressaltar que a ampliação do campo de estudo da antropologia é relativamente uma novidade. Em tempos passados o foco do antropólogo era um dos ramos conhecido atualmente como antropometria. Estudava-se o corpo humano do ponto de vista físico, tamanho do esqueleto, forma das mãos, das pernas etc.  O que tornava a antropologia mais próxima das ciências naturais.
Como o interesse antropológico é o estudo do homem é possível concluir que a abrangência espacial e temporal do conhecimento é tão vasta quanto a própria civilização humana. Em qualquer lugar que haja homens, e em qualquer época, pode o antropólogo fixar suas pesquisas.
A pesquisa própria da antropologia é a pesquisa de campo, mas o cientista também pode se valer de outros meios para formar seu trabalho.
A antropologia cultural analisa a relação entre a herança biológica e social que servem de estrutura a capacidade do homem de viver e produzir cultura. O campo de estudo que mais chama a atenção é a etnografia juntamente com a etnologia que são a descrição e a análise de determinado grupo respectivamente.
O etnógrafo deve ser especialista, deve explorar de forma exaustiva toda a composição cultural de determinado grupo. Para que isto seja possível estuda-se normalmente grupos pequenos e simples. Mas só a descrição não basta, por isso o etnógrafo deve ser também etnólogo, de modo que posso além de expor, analisar as características estudadas.
Considerando o imensa área de conhecimento da antropologia é possível dizer que qualquer outra ciência pode contribuir de alguma forma com a primeira. Claro que existem aquelas que possuem uma relação íntima com a antropologia. Como exemplo podem ser citadas a sociologia, a economia, a psicologia e a política.
No que diz respeito a história, no ponto do provável surgimento da antropologia, encontramos Heródoto, que foi o primeiro a fazer anotações sobre a cultura que o rodeava. Ele é considerado pai da antropologia.



CULTURA
Existem muitas definições para cultura. A seguir serão expostas algumas dadas por estudiosos do tema.
Edward B. Tylor (1871) “Cultura é aquele todo complexo que inclui conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade”
Ralph Linton (1936) “A cultura de qualquer sociedade consiste na soma total de ideias, reações emocionais condicionadas a padrões de comportamento habitual que seus membros adquiriram por meio da instrução ou imitação e de que todos, em maior ou menor grau, participam.”
Franz Boas (1938) “A totalidade das reações e atividades mentais e físicas que caracterizam o comportamento dos indivíduos que compõem um grupo social”
Malinowski (1944) “O todo global consistente de implementos e bens de consumo, de cartas constitucionais para os vários agrupamentos sociais, de ideias e ofícios humanos, de crenças e costumes”
Herkovits (1948) “A parte do ambiente feita pelo homem”
Krobeber e Kluckhohn (1952) “Uma abstração do comportamento concreto, mas em si própria não é comportamento”
Beals e Hoijer (1953) A cultura é uma abstração do comportamento e não deve ser confundida com os atos do comportamento ou com os artefatos materiais, tais como ferramentas, recipientes, obras de arte e demais instrumentos que o homem fabrica e utiliza”
A cultura segundo alguns é composta por elementos materiais e imateriais. No plano material estão os objetos, ferramentas, utensílios domésticos, habitações, obras de arte etc. Enquanto no campo imaterial ou espiritual se encontram os sentimentos, os valores, o conhecimento, as técnicas entre outros.
Um ponto aparentemente consensual entre estudiosos é que qualquer homem possui cultura, salvo o recém nascido que ainda não teve contato com o meio social e o homo ferus que também foi privado do convívio com seus pares tornando-se apenas um animal como os demais, daí a denominação que quer dizer homem-fera.
Alguns autores apontam a cultura como mecanismo de controle social, cita-se como exemplo a Igreja quando regula o relacionamento de seus fiéis impondo regras. Outros, no entanto, enxergam a cultura como fruto da ação humana repetida que de certa forma beneficia o grupo, sem intenção repressora ou algo do tipo.
A localização da cultura também merece ser analisada. Segundo a autora Leslie A. White encontra-se no espaço e no tempo e pode ser classificada da seguinte forma:
Intra-orgânica: Está dentro do organismo humano (Ex. Crenças, conceitos, sentimentos)
Inter-orgânica: Localiza-se nos processos de interação social (Relacionamento humano)
Extra-orgânica: Situa-se nos objetos materiais (Ex. Ferramentas, ferrovias, casas, artesanato)
A essência da cultura é tratada pelos antropólogos como a soma de ideias, abstrações e comportamentos.
Ideias: Concepções mentais de coisas concretas ou abstratas. (Ex. Língua, mitologia)
Abstrações: Aquilo que só se encontra no domínio da mente, não se materializa de forma alguma. Leslie A. White discorda da abstração alegando que ela é irreal, portanto está fora do campo científico.
Comportamento: Modo de agir comum ao grupo.
Outra divisão dada a cultura a separa em real e ideal:
Real: É aquela que acontece, que todos os membros pensam ou praticam em suas atividades quotidianas. No entanto não pode ser percebida em sua totalidade. O conhecimento científico nem sempre pode evidenciá-la  porque o real é apresentado como o que as pessoas conhecem ou pensam que seja.
Ideal: Conjunto de comportamentos considerados bons por todo o grupo, mas que em certas situações são ignoradas, muitas vezes para que o interesse privado prevaleça sobre o coletivo. Seria a cultura perfeita, utópica.
Para ampliar ainda mais a noção sobre cultura serão tratados a seguir os componentes da cultura.
Conhecimento: Normalmente são práticos e próprios do ambiente em que se situa o grupo, com a finalidade de facilitar a sobrevivência. Estão englobados também noções da organização social, estrutura de parentesco, usos e costumes, crenças, técnicas de trabalho etc.


Crenças: É a aceitação de proposições independentemente de comprovação científica. Possui conotação emocional. Subdivide-se, segundo Goodenough (In Kahn, 1975:207)  em três tipos:
                Pessoais: Aquelas aceitas por um indivíduo qualquer
                Declaradas: Proposições que uma pessoa aparenta aceitar e que as usa para justificar suas ações perante os outros
                Públicas: São proposições aceitas como verdadeiras por todo o grupo.
Valores: Citando Raymond Firth (1974:59 e 60) “A qualidade de preferência atribuída a um objeto, em virtude de uma relação entre meios e fins, na ação social”.
Normas: São as regras que regulam o convívio social, fazendo com que o indivíduo tome determinada atitude diante de certa situação.
Símbolos: São manifestações intelectuais do homem as quais se atribuem valores e significados de acordo com o grupo que os utiliza.
Prosseguindo a abordagem do tema serão expostas situações em que culturas diferentes se encontram. Primeiramente o leitor precisa conhecer o etnocentrismo, quando o grupo defende sua cultura como a única correta e superior às demais. Infelizmente isso causa grave prejuízo ao próprio ser humano.
Cada cultura se formou a partir de muitos fatores combinados buscando a realização do bem comum. Logicamente as condições de cada região, a história, o governo, a educação e tudo mais influenciam diretamente na cultura então o que funciona em um lugar pode não funcionar em outro, mas isso não significa que a cultura é ruim, ou inferior. Ela simplesmente surgiu para atender as necessidades daquele grupo naquele momento.
Vale ressaltar também que como a cultura é produto da realização do homem certamente ela corresponde à noção de certo e errado do grupo. Não há certo e errado universais. Para a maior parte dos países árabes a mulher adúltera deve ser apedrejada até a morte e isso é normal. No mundo ocidental isso é considerado um absurdo, algo que é inimaginável. No entanto em nosso país a mulher usa “pouca roupa” e não há nada de errado, enquanto em outro lugar do mundo esse comportamento é inaceitável.
Mas o que vale para o antropólogo são as diferenças, não cabe a ele julgar quem está certo ou errado. Até aqui parece tudo tranquilo, mas em certos casos o costume de alguma sociedade pode contrariar tão intensamente o costume de outro povo que surgem conflitos, inclusive órgãos internacionais tentam disciplinar o comportamento. Como exemplo estão as mutilações sexuais praticadas por determinadas tribos da África.
                A nossa cultura não aceita de modo algum a tortura ou mutilação de pessoas a qualquer título. Mas por que algumas tribos ainda o fazem? Quem estará certo? Difícil responder. O interessante mesmo é pensar a respeito.
                Quando as autoridades locais ou internacionais podem intervir na cultura de um grupo e modifica-la ou mesmo eliminar traços considerados contrários a dignidade humana? Esta questão pode ser discutida por incontáveis anos e jamais haverá consenso. Entretanto não é intenção deste trabalho responder, mas incentivar a reflexão acerca do tema.
                Como estamos entrando na análise de componentes culturais faz-se necessário explicar alguns conceitos como elemento ou traço cultural, complexo cultural e padrão cultural.
                Traço cultural ou elemento cultural: É o elemento mínimo, irredutível de determinada cultura. Podem ser materiais, exemplo a bola num jogo de futebol, ou imateriais como o aperto de mão.
                Complexo cultural: União de vários traços culturais formando um todo que possui determinada função na área cultura correspondente. Ex. O futebol, que une traços como a bola, os árbitros, os jogadores, o campo, a torcida etc.
                Padrão cultural: Segundo Herskovits são “os contornos adquiridos pelos elementos de uma cultura, as coincidências dos padrões individuais de conduta, manifestos pelos membros de uma sociedade, que dão ao modo de vida essa coerência, continuidade e forma diferenciada” O padrão consiste em mando comportamental, é relativamente homogêneo e aceito pela sociedade como um todo. Une modo de pensar e agir aos objetos materiais correspondentes.
                Da integração de diferentes traços e complexos culturais, com os valores que lhes são atribuídos, surge a configuração cultural.
                Ruth Benedict (s.d.:37) escreve: “uma cultura é um modelo mais ou menos consistente de pensamento e ação (...). Não é apenas a soma de todas as partes, mas o resultado de um único arranjo e única inter-relação das partes, do que resultou uma nova entidade”.
                Toda essa composição da cultura precisa de um lugar para existir. É o que chama-se área cultural, é o local onde situa-se o grupo correspondente à determinada cultura, ou que pelo menos os traços e complexos se identifiquem não sendo necessariamente idênticos.
                Normalmente a área cultural corresponde à um território diferente das divisões tradicionais políticas ou administrativas.
                Dentro da cultura dominante existem subculturas que representam adaptações de determinados grupos às regras gerais, sem contradizê-las. Alguns antropólogos associam o termo a grupos regionais, étnicos, ou classes sociais.
                Na constituição da cultura existem fatores com diferente valoração para os indivíduos, o que torna universais certas regras e facultativas aquelas menos importantes. Em culturas mais simples a universalidade as normas é maior ao passo que em sociedades complexas são poucos os princípios universais.
                Podem ser entendidos como universais aqueles valores que explicam e justificam os demais, possuem portanto maior relevância para o povo. Ex. Democracia, monogamia, liberdade etc.
                Fundadas nas normas universais estão as especialidades, que embora sejam aceitas por toda a sociedade somente são praticadas por determinado grupo. Ex. Saudação do escoteiro.
                 Ao lado das especialidades encontra-se a cultura alternativa, que também não contradiz normas universais. Simplesmente é a opção individual. Ex. Mulher usar saia ou calça.
                Como a sociedade é formada por homens e não há indivíduo igual ao outro, existe, na cultura, lugar para as peculiaridades de cada um. Mesmo tendo sido aprendidas por meio social algumas habilidades pessoais não são compartilhadas pelos outros. Ex. habilidade com violão.
                Já falamos bastante de cultura, mas ainda falta examinar como o indivíduo se torna integrante da cultura em que está inserido e por último como ela se modifica.
                O processo pelo qual a pessoa “recebe” sua carga cultural é chamado pelos estudiosos de endoculturação ou enculturação. É necessário saber que o homem é formado pela herança genética, que é automática e presente em todos mais ou menos da mesma forma, e pela herança social que lhe é passada por seus semelhantes durante toda a vida.
                A pessoa em sociedade adquire as crenças, comportamentos, sentimentos, pensamentos, costumes, modo de vida e outros, mas ninguém é capaz de assimilar toda a cultura local.
                Quando uma cultura esbarra na outro temos um outro processo de formação cultural chamado aculturação. Que pode ser entendido como a relação estabelecida entre duas ou mais culturas, em que cada uma afeta a outra. Um exemplo muito próximo é o encontro de portugueses, negros e indígenas na colonização do Brasil.
                Pode ser também o contato entre subculturas locais que se aproximam e trocam ou copiam componentes uma da outra, podem até mesmo se unir a ponto de formar uma nova contando com traços de todas.
                Ao que parece a aculturação sempre resulta no aumento do acervo cultural de dada sociedade, mas não é sempre assim. Traços culturais podem competir em busca de espaço e se apenas um prevalecer estamos diante do fenômeno da deculturação.
                As mudanças culturais estão cada vez mais presentes em nossa realidade tendo em vista que o mundo todo está muito próximo de nós. Com o advento da globalização um costume próprio da Índia pode passar a ser comum no Chile, por exemplo. É até preocupante o que vem acontecendo recentemente porque o mundo está globalizando tudo. A cultura global está tomando conta dos países, eliminando assim aquelas peculiaridades de cada povo, destruindo a identidade cultural. Temo que no futuro não seja possível identificar um pequeno grupo de pessoas por meio de sua cultura.
                Modificar uma cultura pode ser fácil ou difícil, rápido ou demorado tudo depende de como o povo aceita tal mudança. A tendência é que se torne cada vez mais fácil e mais rápida a transformação em virtude da evolução acelerada dos meios de comunicação. Ocorre mudança quando novos elementos são incorporados, ou os velhos são aperfeiçoados; novos elementos são tomados de empréstimo de outras culturas; elementos inadequados são descartados; alguns traços se perdem por não serem transmitidos de geração em geração.
                Quando a quantidade de novos elementos supera o número dos que caíram em desuso ocorre crescimento cultural, caso contrário estaremos falando de declínio cultural.
                O crescimento cultural se dá por meio de:
                Inovação: É a criação ou descoberta de novos elementos. É fruto da criatividade humana e pode surgir a partir de uma necessidade ou até mesmo de acidentes.
                Aceitação social: Um elemento de outra cultura é acrescentado, imita-se o comportamento de outros povos. Pode começar com um indivíduo e se estender aos demais. Normalmente sofre muito com o preconceito.
                Pode ocorrer declínio por questões de eliminação seletiva, em outras palavras um traço que torna-se inútil é esquecido pelo povo. Sempre que um elemento é superado por outro melhor ou mais eficiente ele é abandonado. Somente enquanto for útil ele perdura no tempo.
                O assunto não se encerra com este trabalho, ainda há muito que se falar a respeito de cultura e antropologia. Mas a intenção do presente é apenas formar uma noção acerca do tema e proporcionar ao leitor base sólida para que se aventure em busca de novos saberes.
                Em conclusão pode-se dizer que a antropologia é uma ciência com campo de atuação tão grande quanto sua importância para a formação humana. E que a cultura, uma pequena parte da primeira, merece muito nossa atenção tendo em vista que acompanha toda relação social que os homens estabelecem entre si, diariamente, como condição básica para sua existência. Entender a cultura em suas infinitas formas e processos é entender a própria humanidade.

JOSÉ MARIA ROQUE JUNIOR, acadêmico de Direito da FADIVA (Faculdade de Direito de Varginha)

2 comentários:

  1. Adorei,muito bem explicado!

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    1. A redação agradece! Continue acompanhando, em breve voltaremos a escrever.

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